domingo, 30 de dezembro de 2007


Se pudesse dir-te-ia:
Não partas, porque a noite é escura e o silêncio é denso.
Tão denso que me ensurdece que me cala a boca
Que me seca o peito que me dói no ventre e me encolhe o corpo
E mata as palavras antes de as dizer.
Se pudesse dir-te-ia:
Não partas, porque tenho medo e porque só me sinto.
Mas a solidão é tanta que ocupou a casa
Que encheu os quartos e selou as portas
Que tapou vidraças e me encurralou num canto
E nenhum gesto a quebra e nenhum som a rasga
E mata as palavras antes de as dizer.
Se eu pudesse dir-me-ia:
Não partas, mas já distante sou de quem vi partir.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007


Por vezes oiço as paredes vazias,
E o silêncio, o barulho que ele faz...
É como um grito, um grito doloroso e fundo,
Um grito sofrido, que me rasga o corpo por dentro,
E me ensurdece o peito quando estou só.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007


Ela trabalhava numa casa de alterne.
Ele alternava as noites entre casa e casas de putas.
Ela vestia sempre preto.
Ele achava o preto deslocado.
Uma noite sentou-se na mesa dela.
Ofereceu-lhe uma bebida e um sorriso.
Ela aceitou a bebida.
Hesitou no sorriso.
Aceitou.
Procurou-lhe os olhos.
Ela baixou-os.
Ele gostou.
Ele não falou.
Ela nada disse.
Olhava-a.
Ele ficou na mesa dela toda a noite.
Lendo, interpretando o silêncio.
Os gestos pudicos, o negro da roupa.
O recato numa casa de putas.
No fim da noite ela saiu sem lhe perguntar se a queria.
Simplesmente, levantou-se e saiu.
Ele voltou na noite seguinte e todas as noites.
A noite dele a mesa dela.
O dia dele a espera da noite.
A espera dela.
Uma noite ele estendeu-lhe a mão.
Saíram.
Na rua falou dele.
Falou dela.
Falou na casa que era dele onde uma estranha habitava.
Não ela.
Falou no lugar que era o dela.
Ela não pertencia ao lugar.
Não era o lugar dela.
Tão diferente o preto que ela vestia da cor do lugar.
Tão diferente o silêncio dela dos sorrisos falsos, das palavras abundantes e ocas.
Tão diferente o recato, o pudor nos olhos baixos, da luxúria, da oferta do corpo no lugar.
Ela apertou-lhe a mão como se só ele entendesse.
Ele sentiu-se único e responsável.
Ela fez amor com ele como se o amasse.
Ele fez amor com ela amando-a.
Ele deixou de alternar entre casa e casas de putas.
A noite, o bar, a mesa dela, casa única.
Uma noite ele assumiu perdas e derrotas, impotência e exageros.
Disse-lhe: - Vem viver comigo.
Ela apertou-lhe a mão.
Nessa noite não pegou, como todas as outras noites, no dinheiro que ele pousava ao lado da mala.
Como se não existisse compra.
Como se nunca tivesse havido venda.
Fez amor com ele como se o amasse.
Ele fez amor com ela amando-a.
Chamando-a sua.
No dia seguinte esperou-a no quarto feio e frio a que chamava agora lar.
Ela não chegou.
Esperou-a mais um dia e uma noite.
No outro lado do telefone o silêncio.
Procurou-a.
A mesma mesa.
O mesmo vestido preto.
O mesmo recato.
Outro homem.
Agarrou-a por um braço.
Gritou-lhe dor e amor.
Declarou-se perdido, a culpa dela.
Alguém o expulsou da noite, do bar, da mesa, da vida dela.
Alguém lhe disse rindo:- É a melhor puta da casa.

domingo, 16 de dezembro de 2007


Tristes dias,
Longas noites,
Passam por mim e não me vêem.
Estou encolhido num lugar sem nome,
Num ponto de desencontro,
Onde nem os anjos crêem,
Onde não sou ninguém.
Aqui, não existe nada.
Só silêncio.
O mundo inteiro grita mais além,
Mas não quero ouvir.
Estou cansado...
De sentir.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007


Falarão de mim quando a minha voz se calar?
Lembrarão as palavras quando eu já nada disser?
Pensarão de mim o que fui ou aquilo que me julgaram ser?
Saberão o que senti, o que vivi, O que amei e o que sofri?
Chorarão por mim ou engolirão lágrimas secas?
Sentirão a minha ausência?
Ter-se-ão sequer dado conta da minha existência?...

terça-feira, 11 de dezembro de 2007


"É preciso que saibas que, entre a liberdade e a segurança, a grande maioria não escolhe a liberdade.
A liberdade precisa da coragem de lutar com o medo, sem certeza de o vencer.
E o medo existe sempre, ontem, hoje e amanhã, e a coragem é tão rara como o espírito que ama a liberdade."

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007


Aprendi que ainda tenho muito que aprender
Aprendi que a vida às vezes nos dá uma segunda chance
Aprendi que se aprende errando
Que crescer não significa fazer aniversário
Que o silêncio é a melhor resposta...quando se ouve uma bobagem
Que trabalhar não significa apenas ganhar dinheiro
Aprendi que viver não é só receber, é também dar
Que amigos a gente conquista...mostrando o que somos
Que os verdadeiros amigos sempre ficam com você até o fim
Que a maldade se esconde atrás de uma bela face
Que não se espera a felicidade chegar... mas se procura por ela
Que quando se pensa saber de tudo...normalmente, ainda não se sabe nada
Que amar significa se dar por inteiro
Que um só dia pode ser mais importante que muitos anos
Que ouvir uma palavra de carinho faz bem à saúde
Que dar um carinho também faz bem
Que sonhar é preciso
Que se deve ser criança a vida toda
Que nosso ser é livre
Que Deus não proíbe nada em nome do amor
Que o julgamento alheio não é importante

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007


Se soubesses como tenho, tantas vezes, vontade de te pegar no colo, e dizer-te que vou estar sempre por aqui para que nada de mal te aconteça... Rir-te-ias eu sei... Dirias de imediato: " HO mãe, deixa-te de disparates. Eu já quase nem caibo no teu colo!"
Cabes, filha! Vais caber sempre no meu colo!
Acredita... tenho um regaço do tamanho do mundo... mesmo ao teu tamanho! Um regaço onde haverá sempre espaço para as tuas gargalhadas ou para as tuas lágrimas...
Um regaço que se transformara na noite, para que descanses, ou no dia, para que saibas o sabor do sol...
Porque te digo estas coisas agora, saídas do nada?
Sei lá!... Porque me sentei um pouco nos degraus do tempo e voltei a ti no meu colo... voltei aos dias do teu primeiro sorriso, da tua primeira carícia, do teu primeiro choro sentido, da tua primeira gargalhada a sério, dos teus primeiros passos, dos teus primeiros medos, dos teus primeiros sonhos...
Porque de repente senti medo que o mundo te magoe...
Senti o movimento das horas no crescer dos teus cabelos, nas roupas que não cresciam contigo, na tua vontade de usar os meus sapatos de salto, nas palavras que nasciam dos teus lábios - cada vez mais complexas - no formar das frases cada vez com mais sentido, no desabrochar de temas que faziam nascer nos teus olhos um brilho cada vez maior... Senti, filha!
E de repente dei-me conta que já quase não cabes no meu colo... e fiquei com medo que lhe esquecesses o gosto...
São disparates... eu sei! Mas que queres? Eu sou mãe...
Um beijo do tamanho deste colo....

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007


Vem cá senta-te aí
ah não repares nesta confusão...
são restos desgarrados dos meus eus
espalhados a esmo pelo chão
falaram-me de ti...
que eras deus um deus primeiro,
a entidade imensa e é esse afinal o meu receio...
acreditar ?
mas se eu creio que não creio...
talvez uma ternura densa
talvez um sol filtrado a nevoeiro
quem sabe a ausência de alguém
que prometeu voltar e que não veio
é bom estar aqui contigo...
o quê? já vais embora?
mas há tanta coisa ainda para falar, amigo...
- conversa com um deus em que não creio -