terça-feira, 26 de fevereiro de 2008


Se toda a gente recebesse um telefonema nocturno fora de horas uma vez de vez em quando, acho que haveria menos guerras no mundo. Um telefonema nocturno vale mais do que muitos telefonemas. É um telefonema que se faz só a quem se gosta mesmo, que se recebe só de quem se gosta mesmo. Quando toda a gente dorme nas suas camas, cabelos desgrenhados nas almofadas, respiração cadenciada, sonhos ao alto; outros sonhos são discutidos por um pequenino aparelho que, de madrugada, nos liga a um outro acordado da noite. Naquele momento de telefonema nocturno somos as pessoas mais especiais de sempre porque recebemos um telefonema fora de horas, porque estamos acordados e toda a gente dorme já, porque alguém se lembrou de sonhar essa noite connosco. Um telefonema nocturno vale mais do que mil palavras, vale mais do que todos os agradecimentos e pode restabelecer quase qualquer mundo, mesmo este que emudeceu por algumas semanas. Já não sei se o mundo acabou, se surgiu outro que agora se nos apresenta com telefonemas nocturnos, não sei se este é o mundo antigo a tentar redimir-se do susto de me fazer crer que ia acabar. Não sei! Afinal, sei muito pouco para quem queria anunciar o fim do mundo. Sei, isso sim, que um telefonema nocturno inesperado e fora de horas vale o tornar a acreditar que se calhar, apenas se calhar, mesmo quando os mundos acabam, que a vida pode continuar… se calhar é possível fazer melhor… Um telefonema nocturno fora de horas pode tomar várias formas para que o não reconheçamos à partida: pode ser uma visita inesperada, uma conversa com um amigo, uma carta no correio, uma mensagem, um desenho, um rabisco, um e-mail... Este post é um telefonema nocturno fora de horas camuflado. Obrigado a todos os telefonemas nocturnos fora de horas. Que este seja o telefonema nocturno fora de horas de quem quiser ver mais do que um “fim” na história deste mundo porque toda a gente devia ver um nascer do sol acompanhado e ouvir os pássaros lá fora, e eu escolhi a vossa companhia.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


Emboscado, vou construir o lugar, uma cabeça onde as palavras comecem a rarear, uma confissão sem fôlego, um requisitório uma moribunda em tom de acusante.
Que esconderijo este, onde fica a porta onde estou, estás, o machado que cai sem cerimónias, mas já não é a minha voz a saber quem sou, onde estou, como fazer, não sei ir embora, encontrar as portas, os machados, o pescoço para a corda, os dedos, terei olhos, haverá silêncio e o corpo a cair em picos de cor, e a voz que desiste e não volta a tentar, a tentar o quê?
Não importa, talvez seja a porta, sejas a porta, talvez seja eu, fui eu, foste tu, sei lá o que fomos,vou acordar eu sei que nunca mais vou acordar, por isso tenho de continuar, é tudo o que sei, dizer as palavras enquanto as houver, enquanto as tiver, talvez já tenha acontecido talvez esteja sempre a acontecer, não nunca aconteceu porque nunca acontece, mas tenho de saber, tenho de continuar, já sei, não posso continuar, vou continuar...
Sem continuar a sabê-lo, como o tempo do qual não percebo, mas falo como se o soubesse, digo nunca e digo sempre, falo das estações e das partes do dia e da noite a noite não tem partes à noite as pessoas dormem num calor estranho sem imagens, são palavras apenas neutras, azuis, que aparecem para o meu precisar, num grito pungente em pancadas na boca e no ouvido.
O céu é azul, riscado em fogo de asas abertas.
E vou estar ao pé de mim mas sem palavras para estar.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008


Reparo que os anjos não descem à cidade
Limitam-se a pairar sobre o rio
Para sentir no corpo a fresca evaporação
Das águas nocturnas
Ignorando o crustáceo de gelo cravado no tórax
Observando apenas ao longe
Todo o rebuliço das gentes
E até dos insectos
Ocasionalmente tocam um ombro
E acalmam-no

ACALMAM-NO

De que vale um ombro calmo?
A respiração de um anjo embriagado?
O gelo crustáceo que de tão fino
Estala e quebra
Ainda não me começaram a crescer
Asas nas costas na verdade
Acho que nunca crescerão

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008


Há horas na vida, em que é inevitável
Parar e analisar o mundo, as pessoas que nos cercam

E de repente vem a sensação
De estar um pouco só, de se sentir um louco
Em meio a uma multidão.

Mas sabe,

O que é ser louco
Num mundo dito tão normal,
Mas tão cheio de conflitos,
De tristezas e egoísmo?

Um mundo que ainda valoriza tanto o ter,
E tão pouco o ser.

Um mundo que planeja e projecta tanto o amanhã
Que acaba esquecendo do agora.

Um mundo que mata e que não é feliz,
Que não sorri, que tem pressa de crescer,
Que se esqueceu de apreciar estrelas
E de celebrar um novo dia.

De repente,

Ser louco parece fascinante, nos permite ousar sermos livres
E pensar com mais pureza, acreditar no impossível
E fazer real aquilo, em que ninguém acredita.

Ser louco nos alforria da sensatez total
Da vida de escritório, das algemas da mentira
Da prisão da inveja.

Ser louco nos permite ser criança até quando quisermos,
Distribuir sorrisos num dia de chuva e se lambuzar com chocolate

Afinal aos loucos tudo é permitido.

Enquanto os sãos morrem de amor,
Os loucos vão vivendo dele,

Enquanto o mundo normal corre atrás do dinheiro,
Nós loucos perseguimos a felicidade,

Enquanto os sãos fazem guerra,
Nós lutamos alucinadamente pela paz,

Onde os sãos se desesperam,
Nós loucos sabemos esperar,

Quando o mundo desiste,
Nós permanecemos loucos de amor.

Ser normal pode ser conveniente,
Mas ser louco é ser muito mais feliz.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008


Há muito tempo que não te escrevo, que não escrevo, que não me escrevo.
Ficam-me todas as palavras a bailar na língua mas não sai um único som.
Uma única linha, lembro-me do lodo ao sol... que seca.
Sei lá porque me lembrei do lodo agora!
Nem um único som destes meus lábios que só dizem o teu nome baixinho, num murmúrio, durante o dia, enquanto trabalho, enquanto falo com os outros, enquanto estou calado, enquanto durmo até.
O teu nome, sempre o teu nome, como uma prece, dito baixinho, tão baixo que só o meu coração sabe que te chamo.
E descobri que não sei gritar, não sei gritar uma dor, não sei gritar os gritos que me andam presos na garganta, e fecho os olhos e vejo os teus olhos secos, secos de dores engolidas, e também os meus olhos secam.
E eu, eu já não te escrevo, já não me (d)escrevo há tanto tempo, e seco, como o lodo, sim, o lodo é um bom exemplo.
O meu peito que já não arde, não dói, não pede, não reclama, não nada, não tudo, só aceita, e já não escrevo porque só sei escrever com alma.
E tu sabes, eu sei, não trago a alma comigo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008


Vives na sombra da noite, escondido de toda a luz
que possa quebrar o teu encanto, seduzes as tuas vítimas
com o teu olhar poderoso, com esse teu jeito maldoso
derretes o gelo cortante da noite, com as tuas palavras ardentes
enceideias nas suas veias, toda a maldade e pecado
que possa existir dentro delas, apagas de vez o sorriso inocente
para dar lugar a alguém como tu
Estranho, Sedutor, Maquiavélico
Alguém que domina o mundo, apenas no silêncio da noite
Alguém que conquista, o mais puro coração
Com os teus dentes afiados
Tiras a vida humana, mas ofereces vida já morta
Vida que é consumida na noite
E apagada durante a noite
Enganas quem te pede vida imortal
Pois ela só é vida na escuridão das trevas....