quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008


Emboscado, vou construir o lugar, uma cabeça onde as palavras comecem a rarear, uma confissão sem fôlego, um requisitório uma moribunda em tom de acusante.
Que esconderijo este, onde fica a porta onde estou, estás, o machado que cai sem cerimónias, mas já não é a minha voz a saber quem sou, onde estou, como fazer, não sei ir embora, encontrar as portas, os machados, o pescoço para a corda, os dedos, terei olhos, haverá silêncio e o corpo a cair em picos de cor, e a voz que desiste e não volta a tentar, a tentar o quê?
Não importa, talvez seja a porta, sejas a porta, talvez seja eu, fui eu, foste tu, sei lá o que fomos,vou acordar eu sei que nunca mais vou acordar, por isso tenho de continuar, é tudo o que sei, dizer as palavras enquanto as houver, enquanto as tiver, talvez já tenha acontecido talvez esteja sempre a acontecer, não nunca aconteceu porque nunca acontece, mas tenho de saber, tenho de continuar, já sei, não posso continuar, vou continuar...
Sem continuar a sabê-lo, como o tempo do qual não percebo, mas falo como se o soubesse, digo nunca e digo sempre, falo das estações e das partes do dia e da noite a noite não tem partes à noite as pessoas dormem num calor estranho sem imagens, são palavras apenas neutras, azuis, que aparecem para o meu precisar, num grito pungente em pancadas na boca e no ouvido.
O céu é azul, riscado em fogo de asas abertas.
E vou estar ao pé de mim mas sem palavras para estar.